segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Castração química para pedófilos... pensando sobre o assunto.

Está em pauta um projeto de Lei que prevê a castração química em autores de violência sexual contra crianças. Isto já está sendo colocado em prática em alguns países e no Brasil já está em votação. O projeto prevê a pena de castração química para pedófilo condenado à prisão por crimes de estupro, atentado violento ao pudor e corrupção de menores (PLS 552/07 do senador Gerson Camata /PMDB-ES).
Marcelo Crivella (PRB-RJ), apresentou substitutivo prevendo apenas a oferta de tratamento para contenção da libido, sem caráter obrigatório, mas assegurando ao preso que aderir à terapia a redução de um terço da pena.

Bem, esta história de castração química ficou martelando na minha cabeça e estou tentando analisar a questão.

Pensando no pedófilo à luz da psicanálise, como um perverso, será que a castração química surtiria o efeito esperado??? A perversão não é algo que se subtraia apenas com uma injeção...o buraco, me parece, é bem mais em baixo... o ato sexual é apenas uma das formas de manifestação da perversão (que neste caso é a pedofilia, mas existem outras formas de perversão). Digamos que o ato sexual é o ponto máximo do gozo do perverso, do prazer alcançado, mas este não goza apenas pelo ato sexual, mas com a subjugação do outro.

Um "perverso” usa diversos artificios para obter prazer (até mesmo o contato visual com uma criança é prazeroso para ele). E sabemos que o abuso infantil não se dá apenas pelo ato sexual em si, mas o toque, a exposição da criança à atos com outra pessoa, etc...há muitas formas de se abusar de uma criança que não o ato sexual com o pedófilo em si.

A minha pergunta é, a castração química, em indivíduos com estrutura perversa não suprimirá a fonte da perversão, está então poderá encontrar formas alternativas de se expressar? Talvez formas até mais cruéis??

A castração química, embora seja uma alternativa de proteção a criança à curto prazo, não deve de forma alguma excluir o tratamento do pedófilo. Se queremos prevenir os casos de abuso infantil é preciso ir na fonte. É preciso tratar o autor.

Apesar disso, a experiência clínica mostra que nem todos os pedófilos possuem uma estrutura perversa... ponto a nosso favor, pois isso torna beeeeeeeeeeeem mais fácil o tratamento. Isso porque o perverso em si não tem culpa... o perverso em si não dá a mínima para as proibições, para o “não pode”.

É por isso que mesmo a possibilidade de castração química não inibiria o individuo com a estrutura perversa. A estratégia do medo, da ameaça, não funciona na perversão pelo simples fato que de que perverso goza com a ameaça. Ele goza não só do corpo da criança, mas também de causar toda essa angústia e comoção alheia, ele goza pelo tempo em que consegue escapar da punição.

O "eu interior" de um perverso é construído com suas próprias regras, por isso se eles podem ser tão violentos, frios e calculistas.As regras do seu "eu interior" dizem que aqueles atos estão totalmente corretos, não importando o que a sociedade diz.

Ainda que esteja incapacitado sexualmente, sua estrutura perversa vai se manter e ele vai atuar de outros modos que não seja com o ato sexual em si. Parte do gozo perverso está no tempo de ser perseguido ou mesmo com o fato de ser preso.

Entretanto, parece que nem todos os pedófilos são “perversos em si”. Alguns foram molestados na infância e hoje repetem o ato. Estes, muitas vezes são tomados de uma culpa gigantesca (Vejam o vídeo no final do post). Quem sente culpa não é “perverso em si”, isto é fato!!! Para estes acredito que a castração química surgiria resultados sim. Entretanto não podemos negligenciar o tratamento psiquiátrico e psicanalítico à estes.

O meu maior medo com essa história de castração química é que caiamos em uma “campanha higienista, moralista e politiqueira”, que ao invés de resolver o problema só crie mais um!!!

Vamos debater a castração química sim, mas sem negligenciar outras medidas!! Pedófilo precisa de tratamento que ultrapassa a mera castração química. O buraco é bem mais em baixo!!!

Para finalizar é importante dizer que precisamos superar ou enfrentar o horror que nos causa esse tema para que possamos encontrar alternativas resolutivas que ultrapassem as simples atitudes moralistas. Estas não resolvem nada. É preciso encarar o problema de frente e sem máscaras. Estudar a questão.

Me parece que na Alemanha já existem serviços do governo que atendem específicamente pedófilos. E não só aqueles já condenados e que já praticaram o ato, mas aqueles que identificam em si estes impulsos e procuram o tratamento antes que cometam o ato em si. É uma espécie de “pedófilos anônimos”. Isso é prevenção!! Mas primeiro mundo é outra coisa, né???

Será que podemos esperar isto de um país com marcas tão conservadoras como o nosso?? Um país marcado por campanhas higienistas, por ditaduras militares, por uma democracia fajuta e por um direcionamento religioso e moralista tão presente???

Abaixo o vídeo que falei no meio do texto...vale a pena assistir!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=5jxRy24NR6k&feature=player_embedded

Um comentário:

  1. Ótimo texto. Penso que, qualquer que seja o problema que assole a sociedade de alguma forma, tratá-lo de forma paliativa, como vem sendo feito por nossos governantes, definitivamente, não é o melhor caminho para mudanças. Criar leis mais severas e rígidas, não irá mudar a realidade de quem sofre de patologias, como também não irá mudar a vida dos que sofrem com o desrespeito aos seus direitos tidos como fundamentais pela nossa Constituição. Acredito que somente com políticas afirmativas e participação ativa da sociedade civil organizada, a realidade daqueles que nos cerca poderá mudar substancialmente.

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